Almeida on Fromont, 'The Art of Conversion: Christian Visual Culture in the Kingdom of Kongo'

Author: 
Cécile Fromont
Reviewer: 
Carlos Almeida

Cécile Fromont. The Art of Conversion: Christian Visual Culture in the Kingdom of Kongo. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2014. Illustrations. 328 pp. $47.50 (cloth), ISBN 978-1-4696-1871-5; $19.99 (e-book), ISBN 978-1-4696-1872-2.

Reviewed by Carlos Almeida (Centro de História/Universidade de Lisboa)
Published on H-Luso-Africa (October, 2017)
Commissioned by Philip J. Havik

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A complexidade do diálogo cultural na região centro-ocidental do continente africano, em particular o modo como nas sociedades locais o cristianismo foi incorporado e apropriado é matéria que não cessa de suscitar novos estudos e questionamentos. É já longa e diversificada a bibliografia sobre o tema, cruzando campos disciplinares, contextos e abordagens teóricas, metodologias diversas, facto a que não será estranho o vasto e multifacetado arquivo textual produzido no quadro dessa relação multissecular. A obra da pesquisadora Cécile Fromont, já distinguida com vários prémios internacionais de prestígio, constitui a mais recente contribuição para esse debate e nele passará a ocupar, certamente, um lugar de primeira importância e por várias ordens de razões.

Desde logo, porque reúne, delimita e evidencia a existência de um novo corpus documental, desta vez constituído pelas fontes visuais, desde logo, pintura e escultura, em diferentes suportes e materiais, numa grande diversidade de registos que incluem artefactos da cultura material, objectos religiosos e devocionais, e evidências arqueológicas. Não que tais obras fossem totalmente desconhecidas; algumas, como as aguarelas incluídas no manuscrito do padre Giovanni Antonio Cavazzi da Montecuccolo são aliás bastante famosas e foram objecto de estudos vários.[1] Todavia, as mais célebres como as menos conhecidas destas obras jamais tinham sido pensadas como parte desse conjunto amplo, ainda que disperso, de evidências documentais produzidas no decurso daquela relação. A obra de Fromont abre por isso todo um novo campo de possibilidades de trabalho, tanto a partir da revelação de fontes menos ou escassamente conhecidas, como no cruzamento das informações provenientes da cultura visual e dos artefactos, entendidos agora como série coerente, com a documentação textual, em particular a profusão de relatos e descrições da região escritas por observadores europeus, desde o final do século XV.

Ao mesmo tempo, The Art of Conversion constitui uma contribuição marcante para os estudos sobre as sociedades da África central e o seu envolvimento nas dinâmicas de construção dos espaços atlânticos num domínio, o da história de arte, que à temática tem dedicado um interesse parcelar. De Ezio Bassani (Un Cappuccino nell’Africa nera nel Seicento: I disegni dei Manoscriti Araldi del Padre Giovanni Antonio Cavazzi da Montecuccolo [1987]) a Robert Farris Thompson (The Four Moments of the Sun: Kongo Art in Two Worlds [1981]), além do mais recente Bárbaro Martínez-Ruiz (Kongo Graphic Writing and Other Narratives of the Sign [2013]), uma extensa bibliografia tem aprofundado a referenciação e o estudo da cultura visual das sociedades que estiveram historicamente implicadas na constituição da formação política Kongo. Contudo, só marginalmente tais estudos foram construídos a partir de uma perspectiva histórica, olhando às contingências e ambiguidades resultantes da relação secular mantida com os europeus, e às modalidades de apropriação e incorporação do cristianismo. Mesmo quando perscrutam a dimensão atlântica da cultura visual kongo, a generalidade desses autores tende a obliterar as marcas do convívio com o cristianismo e as suas correlatas expressões nas manifestações culturais nos espaços americanos, em busca da recuperação de uma quase intocada originalidade africana.

O caminho proposto pelo trabalho de Fromont é, entretanto, outro. Trata-se aqui, de estudar de forma tão sistemática quanto possível, todas as evidências visuais da presença do cristianismo no Kongo, desde finais do século XV e ao longo de cerca de quatro séculos, num contexto marcado pela expansão política, religiosa e comercial dos mundos atlânticos, até ao dealbar da era colonial, simbolicamente marcado pela conferência de Berlim e o processo subsequente de partilha do continente africano entre as potências europeias. Esse desiderato impôs a necessidade de reunir um vastíssimo corpus de objectos e de representações visuais largamente disperso por arquivos, museus e colecções privadas, um pouco por todo o mundo. Ao mesmo tempo, contornando o risco do presentismo etnográfico tão comum hoje ainda nos estudos sobre a arte africana, o trabalho de análise dos objectos e representações foi empreendido, sobretudo, no cotejo com as fontes documentais abundantes disponíveis sobre a região em apreço e o contexto histórico em análise, designadamente os relatos e descrições escritas por missionários, ao longo dos séculos XVI a XVIII, e que mais perto estavam da realidade social e política e do quotidiano daquelas sociedades.

No plano teórico, o eixo de análise desenvolve-se em torno do conceito de espaço de correlação, uma elaboração original de Fromont sugerida pela noção de “lugar de correlação” tomada de Thomas Cummins, historiador de arte também ele, no contexto de uma reflexão sobre a importância das produções artísticas não-europeias na reelaboração da ideia de arte, durante o período usualmente designado como Renascimento.[2] Na definição proposta por Fromont, espaços de correlação são criações culturais—“narrativas, objectos de arte ou celebrações”—que constituem um domínio ainda indefinido onde os seus criadores podem confrontar e misturar ideias e formas oriundas de contextos culturais diferentes ao ponto de os transformarem em partes interrelacionadas de um novo sistema de expressão e pensamento (pp. 15-16).

No contexto histórico em análise, produtos culturais diversos como símbolos, mitos de origem ou cerimónias, teriam gerado dinâmicas de diálogo, confronto, apropriação, mistura e interpretação entre os sistemas de pensamento das sociedades desta região da costa centro-ocidental africana e o cristianismo que evoluíram no sentido da constituição, não já e apenas de novos sentidos para cada um desses elementos, mas de um sistema de pensamento totalmente original, resultante de um novo equilíbrio entre os diferentes elementos que o constituem. A essa totalidade nova, Fromont designa como “cristianismo kongo,” na linha das teses defendidas por autores como Richard Gray, mas especialmente John K. Thornton, com cujas conclusões o trabalho de Fromont é largamente convergente.[3] Num certo sentido aliás, a utilização do conceito de “espaço de correlação” evoca a noção de “revelação partilhada” ou de “co-revelação” proposta por Thornton que sugere ser, a validação de certos factos e fenómenos, entre crentes de mundos religiosos diversos, como manifestações do transcendente, o elemento gerador do encontro cultural e propulsor, por isso, da constituição de universos religiosos novos, integrando de forma criativa elementos de proveniências distintas.[4]

Em obediência à proposta conceptual, o plano da obra é balizado cronologicamente entre um primeiro capítulo dedicado ao “advento” do cristianismo no Kongo, grosso modo, durante a primeira metade do séc. XVI, e o quinto e último capítulo, onde se analisam as manifestações relacionadas com o cristianismo durante os séculos XIX e XX, numa altura em que a presença missionária na região era já escassa ou intermitente. Nesse quadro, entretanto, privilegia-se uma abordagem sincrónica centrada, justamente, na análise de um conjunto de criações culturais onde, ao longo dos séculos, se terão desenvolvido processos de correlação em torno dos quais se terão cristalizado novas formas de pensar o mundo, novos modelos de representação do poder e da autoridade que formariam o todo “coerente” que a autora designa como “cristianismo kongo.” Cada um dos cinco capítulos que compõem a obra é aberto com a análise de uma aguarela incluída no manuscrito Missione in Prattica…, escrito em meados do século XVIII e hoje atribuído ao padre capuchinho Bernardino Ignazio d’Asti, em que se ilustram actividades da rotina diária do missionário por aquelas regiões, e onde Fromont procura evidenciar a complexidade dos fenómenos de sincretização, apropriação e criação implicados em cada um dos objectos culturais estudados.[5]

O primeiro capítulo centra-se numa cerimónia designada como sangamento, uma forma de demonstração marcial executada por ocasião de exibições de destreza física e capacidades guerreiras, mas também como complemento de cerimoniais de celebração do poder, como sejam a investidura de títulos ou a realização de encontros diplomáticos. A partir da análise das descrições do sangamento escritas por missionários europeus durante os séculos XVII e XVIII, Fromont identifica duas partes distintas naquela cerimónia, ainda que, em algumas ocasiões, executadas na mesma sequência e sem interrupções. A primeira parte desenrolar-se-ia em torno da figura de Nimi a Lukeni, o herói fundador do Kongo, ao passo que a segunda evocaria o papel do Mwene Kongo Afonso Mvemba Nzinga na refundação daquela formação política, durante as primeiras décadas do séc. XVI e sob o patrocínio do cristianismo. Se, na primeira parte, pontificavam os trajes e armas locais, já no segundo momento destacar-se-iam as armas europeias, em particular as espadas, e uma indumentária que incluiria diversos elementos europeus e símbolos e insígnias associadas com o cristianismo. O conjunto da cerimónia sintetizaria uma narrativa de legitimação do poder mutuamente inteligível e aceitável para os mundos culturais em presença e que, ao mesmo tempo que introduzia o cristianismo na liturgia de celebração do poder, inscrevia o Kongo no universo da cristandade.

Na verdade, a primeira metade do século XVI constitui um período chave para compreender o processo de apropriação e reinterpretação do cristianismo no Kongo. Na sequência de um período de disputa pela posição de Mwene Kongo—que sempre ocorria em situação de vacatura do título—um dos pretendentes Afonso Mvemba Nzinga, que as fontes portuguesas apresentam como um cristão convicto e profundo conhecedor da doutrina, logrou derrotar o seu opositor que, alegadamente, rejeitava o cristianismo que o pai de ambos abraçara, em 1491. Tal vitória seria rodeada de uma aura milagrosa, já que o sucesso da a batalha entre as duas forças teria sido ditado pela aparição de uma cruz no céu e de um grupo numeroso de guerreiros a cavalo, um episódio com fortes reminiscências do mito fundador de Ourique. A narração desse acontecimento teria chegado a Lisboa através de uma carta de Mvemba Nzinga dirigida ao Rei de Portugal, D. Manuel, que teria promovido a criação de um brasão de armas para o rei cristão do Kongo inspirado na descrição do milagre.[6]

Para Fromont, o reconhecimento desta narrativa resultou do poder simbólico de dois elementos visuais, o ferro, por um lado, como descritor de poder e liderança na generalidade dos mitos de origem nesta região centro-ocidental do continente africano, e a cruz. Neste sentido, a espada de tipo europeu encerraria o poder evocador de ambos, e tornar-se-ia o símbolo por excelência da nova ideologia do poder. A sua importância estaria reflectida, desde logo, no próprio brasão de armas oferecido por Manuel, sucessivamente revisto ao longo do século XVII, e na importância que essas armas adquiririam no cerimonial do poder e enquanto símbolo de estatuto social.

O tema da cruz é tratado, com grande detalhe e minúcia no capítulo segundo. Esse foi o espaço de correlação nuclear que criou um “terreno epistemológico comum” em torno do qual se articularam e confrontaram os sistemas cosmológicos africano e europeu. Fromont sublinha como, desde o primeiro baptismo de um Mwene Kongo—Nzinga Nkuwu, em 1491—a cruz é apresentada como motivo de uma manifestação milagrosa a que é reconhecido um sentido revelador, tanto pelos europeus quanto pelos africanos. Tal foi possível porque na cosmologia kongo, bem antes da chegada dos portugueses como os registos arqueológicos também analisados por Fromont o comprovam, as representações cruciformes remetiam para sentidos que conectavam o mundo dos vivos com o mundo dos espíritos, as duas dimensões do universo cosmológico kongo. O favor da cruz na batalha pelo partido de Mvemba Nzinga confirmaria o lugar do crucifixo como instância de refundação e legitimação de poder, mas ao mesmo tempo também como elo de vinculação desse poder com o mundo dos antepassados. A sua centralidade revela-se tanto na esfera pública, com a instalação de grandes cruzes que passariam a dominar a paisagem em muitas povoações e centros urbanos—prática iniciada por Mvemba Nzinga—como na esfera privada com o uso e eventual produção local de crucifixos, ainda hoje visíveis nas pesquisas arqueológicas realizadas em algumas regiões outrora integradas no espaço político Kongo, assim como nas colecções de grande museus internacionais, ainda que aí apresentadas com uma cronologia bastante imprecisa. Neste capítulo, Fromont sustenta a tese de que existe um “estilo local” de crucifixos, produzido pelo menos desde o século XVII e marcado pela acumulação de elementos iconográficos, propondo uma chave de leitura que inclui as figuras em pose aparente de prece que surgem nos braços de alguns exemplares. Ainda que nessa análise pareça evidente o carácter estruturante de uma sintaxe africana na construção desses objectos—visível entre outros elementos no friso reticulado que bordeja a cruz, evocando os tecidos que envolviam o corpo do defunto nas cerimónias fúnebres, na  identificação do ponto central na intersecção dos dois braços do crucifixo, além das figuras sentadas nos braços laterais—Fromont insiste na ideia que foi o cristianismo que se apropriou das formas de representação do pensamento local para expressar as suas ideias, e não a cosmologia Kongo que acomodou expressões do léxico simbólico do cristianismo para reproduzir a sua visão do mundo.

O terceiro capítulo analisa o modo como, ao nível da indumentária e das insígnias de poder, se desenvolveram espaços de correlação entre materiais e objectos de diferentes proveniências que reformularam a gramática visual do poder e de afirmação de estatuto social. Das primeiras descrições sobre o traje do Mwene Kongo e da aristocracia que controlava o acesso a esse título até às representações sobre a indumentária das embaixadas oriundas do Kongo que cruzaram o Atlântico em diferentes direcções, com destaque para a de António Manuel Nvunda, logo na primeira década do século XVII—e cujo busto é hoje ainda visível na sacristia da igreja de Santa Maria Maggiore, em Roma—passando pelas evidências arqueológicas recuperadas de necrópoles localizadas em regiões integradas no espaço Kongo, avulta o interesse pelo exotismo dos tecidos europeus, a justaposição complexa de peças e insígnias europeias e africanas, assim como o cosmopolitismo do mundo Kongo e a sua forte integração nos circuitos do comércio atlântico e mundial. Fromont passa em revista um leque muito apreciável de representações, onde a rede conhecida como nkutu, o mpu—um barrete em tecido de ráfia, insígnia de poder e atributo de distinção social—colares de contas ou adereços em metal como pulseiras ou braceletes, convivem com sapatos, camisas e chapéus europeus, assim como longos tecidos usados ao modo de capa. Mais do que uma mera acumulação de elementos, Fromont analisa, em particular, alguns objectos e descrições textuais onde parece existir um intercâmbio complexo de formas e significados simbólicos, seja por via da incorporação de cruzes ou de signos alfabéticos na decoração de exemplares de mpu, seja pela reconversão de chapéus em insígnia de poder, substituindo uma coroa ao estilo europeu que os Mwene Kongo envergariam e que se teria perdido durante a batalha de Mbwila, em 1665, na qual um exército armado a partir da colónia portuguesa de Luanda derrotou o exército do Kongo, matando António Mani Mulaza, o Mwene Kongo de então. Aquele processo era facilitado pelo facto de, na zona linguística bantu onde o espaço político Kongo se integrava, se verificar uma forte conexão entre o léxico que nomeia a riqueza e o poder.

Fromont sublinha o envolvimento profundo do Kongo nas redes do comércio atlântico, por onde, além do cristianismo ou da escrita, circulavam os produtos exóticos que eram incorporados na indumentária de estatuto e prestígio social, mas considera o conceito de “crioulo atlântico” impróprio para designar os fenómenos de correlação que geraram novas noções de riqueza, poder e prestígio social reconhecidos tanto no ambiente africano como no espaço político e diplomático europeu. Em The Art of Conversion dedica-se particular atenção à figura dos chamados “mestres,” personagens em geral oriundos da elite do Kongo, alfabetizadas e com educação religiosa, e que se tornaram figuras centrais, como auxiliares do clero regular e secular, cuja presença foi sempre intermitente e irregular na diversidade de formações sociais integradas no espaço político Kongo, e enquanto oficiantes da nova liturgia do poder inaugurada com a apropriação do cristianismo. A sua condição de intermediários culturais é sublinhada por uma indumentária própria marcada pela cor branca dos tecidos que envergavam e onde avulta o mpu, atributo local de poder e influência social, de par com o báculo processional.

O quarto capítulo analisa as marcas na paisagem que resultam da apropriação do cristianismo pelo Kongo. Além das grandes cruzes já referidas, instaladas em zonas determinadas das povoações e centros urbanos, é dedicada uma especial atenção à construção de igrejas como lugares de correlação. Tanto as descrições sobre a localização e construção de igrejas, como as referências ao seu uso, evidenciam a sua conexão com significados religiosos associados à relação entre o mundo dos vivos e o mundo dos espíritos. Não só as igrejas foram construídas em locais usados como espaços de enterramento e de alguma forma associados ao culto dos antepassados como, de ora em diante, passariam a ser disputadas como lugares de prestígio para sepultura ou até exclusivamente dedicadas a tal propósito. A vinculação entre o culto cristão e uma certa forma de evocação dos antepassados já de alguma forma expressa na grande celebração do Dia de Santiago, a 25 de Julho—e que evocava a vitória milagrosa de Mvemba Nzinga—seria ainda reforçada pelo investimento promovido em especial pelos capuchinhos nas celebrações do Dia de Todos os Santos. Fromont analisa as representações visuais e descrições textuais sobre as igrejas do Kongo e nota a sua presença singular na paisagem urbana, contrastante com a generalidade dos espaços edificados orientados em geral para o interior e definidos por vedações que os delimitam em relação ao exterior. O estudo que empreende sobre os edifícios do Kongo mostra, aliás, uma assinalável resistência dos padrões construtivos locais, assim como das estratégias decorativas, face às inovações europeias, excepção feitas às igrejas onde dominam os materiais importados ou inspirados na Europa, embora os elementos usados na decoração dos espaços de habitação, em especial os tecidos, não deixem de estar presentes.

Para Fromont, a tensão entre motivos africanos e europeus que é reflectida no desenho e no programa decorativo das igrejas marca igualmente o traçado de espaços rituais não cristãos, como o kimpasi, uma sociedade iniciática secreta de homens e mulheres, expressamente identificada e descrita nos relatos dos missionários capuchinhos na segunda metade do séc. XVII. Ainda que reconheça que não é possível determinar a data de surgimento das associações kimpasi e, em especial, se ela é anterior ou contemporânea à chegada do cristianismo, a autora de Art of Conversion não deixa de afirmar que “The impact that Christian and central African religious thought and artistic form had on one another surpassed the single frame of Kongo Christianity. Social and religious phenomena outside the new religion, such as the kimpasi ... also evolved as a result of thee cross-cultural confrontation of local and foreign ideas about social organizations, religious rituals, and the supernatural” (p. 201). Neste sentido, Fromont identifica similitudes nas formas de recrutamento e nos objectivos e nos modelos de organização dos espaços litúrgicos entre as associações kimpasi, que designa como “seitas,” e as irmandades e confrarias promovidas pelos missionários, para concluir que, em si mesmas, elas são expressão das inovações resultantes do confronto entre formas europeias e africanas de pensamento religioso.

Este é talvez o ponto onde a autora leva mais longe a sua tese central de que, no caso em presença, foi o cristianismo que incorporou formas de representação visual do Kongo para tornar compreensível a sua visão do mundo. É à luz desta mesma visão que é analisado o movimento profético conhecido como antonino, iniciado por Beatriz Kimpa Vita, no final do séc. XVII, entendido não como expressão da incapacidade da proposta cristã para enfrentar a agudização das tensões sociais induzida pela desagregação política do Kongo e pela aceleração dos efeitos disruptivos do tráfico de escravos, mas antes como evidência do modo como o cristianismo foi utilizado no Kongo para dar sentido à realidade social em transformação.

Por fim, no capítulo quinto, Fromont debruça-se sobre as manifestações da presença do cristianismo no Kongo, durante os séculos XIX e XX, período durante o qual, no contexto da partilha colonial de África, a formação política Kongo acabaria por ser integrada na colónia portuguesa de Angola. A autora considera que a generalidade dos relatos europeus desta época padece de uma espécie de “cegueira selectiva,” que desvaloriza as evidências sobre a persistente influência do cristianismo na vida social e cultural das populações da região. Só os textos produzidos por portugueses escapariam a esse viés, em razão, estima a autora, do seu interesse—decorrente da debilidade do país para disputar a partilha colonial de África com as demais potências europeias—em evidenciar o grau superior de organização social do Kongo como o resultado da sua influência secular na região para, desse modo, justificar as suas pretensões ao seu domínio colonial.

Entre as mais notórias evidências da presença do cristianismo avultam as comunidades designadas como “gentes da igreja,” ou “escravos da igreja,” descendentes, em particular, dos escravos que os capuchinhos mantinham no apoio às suas missões, sobretudo a partir do final do séc. XVIII e por toda a centúria de Oitocentos.[7] Mesmo com o gradual abandono da missão pelos capuchinhos, estas comunidades mantiveram a sua identidade, reclamando, segundo Fromont, uma posição de privilégio nas disputas pelo poder já que controlavam o acesso às igrejas e aos objectos cristãos, entretanto adoptados como insígnias de liderança e autoridade política. Ademais, The Art of Conversion vai mais longe na análise dos testemunhos disponíveis, textuais e visuais, sobre o quotidiano destes grupos, considerando que estas comunidades, longe de se limitarem à revisitação de tradições caídas em desuso, cuidavam da reformulação da composição e usos dos objectos e práticas rituais cristãos, adaptando-os aos desafios da realidade social em acelerada transformação. Paralelamente, começam a emergir, nos relatos europeus que cruzam estas regiões da costa centro-ocidental africana, figuras de culto antropomórficas que exibem uma parafernália complexa de adereços, entre os quais pregos, pedaços de metal ou vidro espetados, assim como tiras de tecidos amarrados, além de marcas de terem sido golpeados por objectos contundentes. Tal como refere Fromont, as fontes europeias anteriores ao século XVIII assinalam a existência de figuras antropomórficas investidas de alguma forma de poder espiritual e por isso veneradas, mas sem se notar, pelo menos de forma expressa, a prática de as perfurar ou golpear como parte do cerimonial de propiciação.

Essas figuras, designadas como minkisi minkondi, ocupam hoje lugar de destaque nas colecções de grandes museus internacionais de antropologia ou arte africana. Ainda que a geografia destas figuras seja apenas marginalmente sobreponível aos limites mais amplos do espaço ocupado pela formação política Kongo, Fromont considera que elas partilham, com as imagens devocionais cristãs cuidadosamente envolvidas em pedaços de pano guardadas pelas “gentes da igreja,” uma mesma gramática de sentidos e significações que se radica, em última análise, na totalidade que designa como “cristianismo kongo.” Assim se compreenderia que, na composição de tais figuras, surgissem crucifixos, punhos de espadas europeias, fragmentos de tecidos europeus ou conchas semelhantes ao atributo que identifica S. Tiago na iconografia católica. A exemplo da relação estabelecida entre o kimpasi e as confrarias e irmandades, Fromont considera que os minkisi minkondi e o tratamento dado às figuras devocionais católicas operam sobre uma mesma teia de correlações tecida, desde o século XVI, entre o cristianismo e o pensamento religioso kongo e reelaborada nos séculos seguintes.

Ao longo de toda a obra, a análise dos espaços de correlação criados no diálogo entre as formas visuais e simbólicas do cristianismo e do pensamento religioso Kongo é projectada, além do espaço africano, pelos circuitos do mundo atlântico. Seja por via das embaixadas do Kongo ou do Nsoyo que visitaram várias capitais europeias e alcançaram o Brasil, durante o século XVII, nas cerimónias festivas de investidura de Reis do Kongo em várias cidades do Brasil, ou na representação visual de cenas do quotidiano da população negra, escrava e forra, também no Brasil, Fromont sublinha como essas manifestações culturais continuaram a operar dentro do vocabulário visual e simbólico construído no encontro entre o cristianismo e a cosmologia kongo, ancorando hábitos, práticas sociais e estratégias de afirmação identitária.

Fromont insiste no carácter pacífico e voluntário da integração do cristianismo na vida social e política do Kongo. Reconhecendo embora que o processo que designa como “imposição do Cristianismo como religião de estado” é indissociável da afirmação de lógicas de poder e legitimação da autoridade (p. 4), Fromont rejeita a utilidade da abordagem pós-colonial por considerar que os processos de relacionamento cultural na África centro-ocidental, até ao século XIX, se desenvolvem num contexto do qual estão ausentes as lógicas de domínio e opressão por um poder exterior. O debate teórico que The Art of Conversion suscita beneficiaria, entretanto, se a preocupação em sublinhar a especificidade desta relação—por contraponto, por exemplo, ao verificado nas Américas—fosse acompanhada por um investimento similar no diálogo com a diversidade de perspectivas aberta pela bibliografia vasta sobre esta problemática e que vão muito para além do tópico da coerção externa. As próprias evidências analisadas na obra e que apontam para uma assinalável consistência e plasticidade da cosmologia kongo são bastantes e de relevância suficiente para justificar um exame crítico mais detalhado sobre o contributo de vários autores, como Wyatt MacGaffey, Anne Hilton ou James Sweet—para citar apenas os nomes mais importantes—que vêm defendendo ser essa coerência o que permite, em última análise, a apropriação e interpretação selectiva das novidades propostas pelo cristianismo. Uma adesão demasiado incondicional ao conceito de “cristianismo kongo” acaba aliás por comprometer, de alguma maneira, a compreensão da natureza contingente do processo sobre a qual Fromont muito justamente insiste. A opção por uma exposição sincrónica do argumento, ainda que compreensível, não facilita também a compreensão das flutuações, ambiguidades, tensões e contradições de uma relação que se prolonga por quatro séculos. Por outro lado, sendo o confronto entre as imagens e as fontes escritas um dos mais inovadores contributos de The Art of Conversion, importa ter presente que a leitura dos relatos e descrições escritas pelos missionários exige um apuramento crítico e um cuidado hermenêutico tão fino quanto o da leitura imagética das representações visuais. Compreender a posição do missionário na relação com os destinatários do seu texto é, neste particular, crucial. Aspectos que só reforçam a importância da obra de Fromont pelas perspectivas que abre para o aprofundamento das pesquisas e interrogações suscitadas.

A edição do trabalho de Fromont é profusamente ilustrada, com inúmeras imagens, algumas delas raramente vistas, reproduzidas com excelente qualidade. Tal facto torna ainda mais incompreensível a opção editorial de não incluir a referenciação final de todas as fontes consultadas, assim como a listagem da bibliografia trabalhada. A ausência dessa informação seria sempre injustificada num trabalho de índole científica mas, no caso presente, é-o ainda mais, atenta a diversidade de fontes compulsada e a importância das opções heurísticas da sua autora. Exigia-se outro cuidado no tratamento de uma obra que é já uma referência de consulta obrigatória para todos os que trabalham sobre o contexto pré-colonial da região centro-ocidental do continente africano e as suas articulações com os espaços atlânticos.

Notes

[1]. Veja-se, a este propósito, Ezio Bassani, Un Cappuccino nell’Africa nera nel Seicento: I disegni dei Manoscriti Araldi del Padre Giovanni Antonio Cavazzi da Montecuccolo (Milão: Stampa Sipiel, 1987).

[2]. Thomas Cummins, “From Lies to Truth: Colonial Ekphrasis and the Art of Crosscultural Translation,” in: Reframing the Renaissance: Visual Culture in Europe and Latin America, 1450–1650, ed. Claire J. Farago (New Haven, CT: Yale University Press, 1995), 152-172.

[3]. Para a formulação mais recente do pensamento de Thornton sobre a matéria veja-se, John K. Thornton, “Afro-Christian Syncretism in the Kingdom of Kongo,” Journal of African History 54, no. 1 (March 2013): 53-77.

[4]. John K. Thornton tem vindo a apurar esta ideia em várias obras. Veja-se, John K. Thornton, Africa and Africans in the Making of the Atlantic World, 1400-1800, 2ª edição (Cambridge: Cambridge University Press, 1998), 235-271; e John K. Thornton, A Cultural History of the Atlantic World, 1250-1820 (Cambridge: Cambridge University Press, 2012), 395-461.

[5]. Missione in Pratica de P. P. Cappuccini Italiani ne Regni di Congo, Angola, et adiacenti, brevemente esposta per lume, e guida de Missionarj a quelle Sante Missioni destinati, ms. 457, Biblioteca Civica Centrale, Turin. Existem duas outras cópias deste manuscrito, uma na Biblioteca Vaticana, Borg. lat. 316, com algumas imagens que evocam as do manuscrito de Turim, mas de muito menor qualidade, outra na Biblioteca Nacional de Lisboa, ms. 1432 que terá pertencido, presumivelmente, ao hospício que os capuchinhos possuiam na cidade de Lisboa, mas sem qualquer imagem.

[6]. Sobre essa carta veja-se “Carta do Rei do Congo a D. Manuel I” (October 5, 1514), in Monumenta Missionária Africana, ed. António Brásio, Iª Série, Vol. I (Lisbon: Agência Geral do Ultramar, 1952), 295.

[7]. Veja-se, a este propósito, Carlos Almeida, “Escravos da missão—notas sobre o trabalho forçado nas missões dos capuchinhos no Kongo (finais do Séc. XVII),” TEL - Tempo, Espaço, Linguagem 5, no. 3 (September-December 2014): 40-59, http://www.revistas2.uepg.br/index.php/tel/article/view/7041/4672#.WblJsNGX3IU.

Citation: Carlos Almeida. Review of Fromont, Cécile, The Art of Conversion: Christian Visual Culture in the Kingdom of Kongo. H-Luso-Africa, H-Net Reviews. October, 2017.
URL: http://www.h-net.org/reviews/showrev.php?id=50606

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